Durante muitos anos, a gordura foi vista como a grande vilã da alimentação. Dietas “low fat” dominaram recomendações nutricionais, e muitos passaram a associar gordura a aumento de peso e problemas cardíacos. Hoje, a ciência mostra um cenário muito mais equilibrado: nem todas as gorduras são iguais, e algumas são essenciais para a saúde.
Entender os diferentes tipos de gordura, as suas funções no organismo e como incluí-las de forma consciente é fundamental para uma alimentação saudável, sustentável e realista.
Neste artigo, vais perceber:
- O que são gorduras e para que servem
- Os principais tipos de gordura
- Quais priorizar e quais limitar
- Como usar gordura de forma inteligente no dia a dia

Conteúdo do artigo:
O que são gorduras e por que são importantes?
As gorduras, também chamadas de lípidos, são um dos três macronutrientes essenciais, juntamente com proteínas e hidratos de carbono. Elas desempenham funções vitais no organismo, muito para além do fornecimento de energia.
Entre as principais funções estão:
- Produção e regulação hormonal
- Absorção de vitaminas lipossolúveis (A, D, E e K)
- Proteção de órgãos e tecidos
- Saúde cerebral e do sistema nervoso
- Sensação de saciedade e prazer alimentar
Eliminar ou reduzir excessivamente a gordura da alimentação pode levar a desequilíbrios hormonais, défices nutricionais e perda de qualidade alimentar.
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Gorduras saturadas
As gorduras saturadas são geralmente sólidas à temperatura ambiente e estão presentes tanto em alimentos de origem animal como vegetal.
Principais fontes
- Carnes gordas
- Enchidos
- Manteiga
- Natas
- Queijos
- Óleo de coco
- Óleo de palma
Impacto na saúde
Durante muito tempo, as gorduras saturadas foram associadas diretamente a doenças cardiovasculares. Atualmente, sabe-se que o problema está mais no excesso e no contexto alimentar do que na gordura saturada isoladamente.
Consumidas em excesso e associadas a dietas pobres em fibras e ricas em ultraprocessados, podem contribuir para:
- Aumento do colesterol LDL em algumas pessoas
- Maior risco cardiovascular
Consumidas com moderação e dentro de uma alimentação equilibrada, não precisam ser completamente evitadas.
Gorduras monoinsaturadas
As gorduras monoinsaturadas são consideradas uma das opções mais saudáveis e estão fortemente associadas a padrões alimentares benéficos, como a dieta mediterrânica.
Principais fontes
- Azeite de oliva
- Abacate
- Azeitonas
- Frutos secos (amêndoas, nozes, avelãs)
- Óleo de amendoim
Benefícios para a saúde
Estas gorduras estão associadas a:
- Melhoria do perfil lipídico
- Redução do colesterol LDL
- Proteção cardiovascular
- Ação anti-inflamatória leve
São uma excelente escolha para uso diário, tanto em preparações frias como quentes.
Gorduras poli-insaturadas
As gorduras poli-insaturadas incluem dois grupos essenciais: ómega-3 e ómega-6, que o corpo não consegue produzir e precisa obter através da alimentação.
Ómega-3
Principais fontes
- Peixes gordos (salmão, sardinha, cavala)
- Linhaça
- Chia
- Nozes
- Óleo de linhaça
Benefícios
- Redução da inflamação
- Saúde cardiovascular
- Função cerebral
- Apoio à saúde mental
- Recuperação muscular
O consumo de ómega-3 é frequentemente insuficiente na população, sendo um dos tipos de gordura mais importantes a priorizar.
Ómega-6
Principais fontes
- Óleos vegetais (girassol, milho, soja)
- Sementes
- Frutos secos
O ómega-6 também é essencial, mas o problema surge quando existe desequilíbrio: a dieta moderna tende a fornecer muito ómega-6 e pouco ómega-3, o que pode favorecer processos inflamatórios.
O ideal é manter uma boa relação entre ambos, não eliminar o ómega-6.
Gorduras trans
As gorduras trans são as mais prejudiciais para a saúde e devem ser evitadas sempre que possível.
Onde são encontradas
- Margarinas hidrogenadas
- Produtos de pastelaria industrial
- Bolachas recheadas
- Snacks ultraprocessados
- Fast food
Impacto na saúde
As gorduras trans estão associadas a:
- Aumento do colesterol LDL
- Redução do colesterol HDL
- Maior risco de doenças cardiovasculares
- Inflamação sistémica
Ao contrário das outras gorduras, não oferecem benefícios conhecidos e devem ser minimizadas ao máximo.
Gordura e controlo do peso
Durante muito tempo, acreditou-se que reduzir gordura na alimentação era essencial para perder peso. No entanto, a evidência atual mostra que o controlo do peso depende muito mais do equilíbrio calórico global, da qualidade dos alimentos e da saciedade, do que da gordura isoladamente.
As gorduras têm um papel importante no controlo do apetite. Por serem digeridas mais lentamente, contribuem para uma maior sensação de saciedade após as refeições. Isso ajuda a reduzir beliscos constantes, picos de fome e consumo excessivo de alimentos ao longo do dia. Dietas extremamente pobres em gordura tendem a ser difíceis de manter justamente por deixarem as refeições menos satisfatórias.
Outro ponto relevante é que as gorduras tornam os alimentos mais palatáveis, o que pode parecer negativo à primeira vista, mas na prática aumenta a adesão à alimentação saudável a longo prazo. Uma dieta que não gera prazer é mais difícil de manter e frequentemente leva a episódios de compulsão.
Apesar disso, é importante lembrar que a gordura é o macronutriente mais calórico, fornecendo cerca de 9 kcal por grama. Isso significa que, mesmo sendo saudável, o excesso pode contribuir para ganho de peso, especialmente quando combinado com alimentos ultraprocessados ricos em açúcar e sal.
Por isso, a abordagem mais eficaz não é eliminar gordura, mas:
- Priorizar fontes de qualidade
- Usar quantidades adequadas às necessidades individuais
- Integrar gorduras em refeições equilibradas, com proteína e fibra
Quando bem utilizadas, as gorduras ajudam a regular o apetite, a manter níveis de energia estáveis e a tornar a alimentação mais sustentável — fatores-chave para o controlo do peso a médio e longo prazo.
Gorduras e saúde hormonal
As gorduras desempenham um papel central na saúde hormonal, sendo essenciais para a produção e regulação de várias hormonas no organismo. Hormonas como a testosterona, os estrogénios e o cortisol dependem de uma ingestão adequada de gordura para serem produzidas corretamente.
Dietas muito restritivas em gordura podem levar a desequilíbrios hormonais, especialmente quando combinadas com défice calórico prolongado ou excesso de exercício. Em mulheres, isso pode manifestar-se através de alterações no ciclo menstrual; em homens, através de redução dos níveis de testosterona. Em ambos os casos, podem surgir sinais como fadiga, queda de libido, dificuldade de recuperação e alterações de humor.
As gorduras também são fundamentais para o bom funcionamento da glândula tiroide, que regula o metabolismo, e para a absorção das vitaminas A, D, E e K, essenciais para a saúde óssea, imunidade e função celular.
Outro aspeto importante é o papel das gorduras na saúde do sistema nervoso. O cérebro é composto em grande parte por gordura, e uma ingestão adequada de lípidos de qualidade contribui para:
- Estabilidade emocional
- Função cognitiva
- Resposta ao stress
Gorduras insaturadas, especialmente os ómega-3, estão associadas a melhor regulação inflamatória e podem ter impacto positivo no humor e na saúde mental.
Assim, uma alimentação equilibrada deve incluir gorduras suficientes e de boa qualidade para apoiar o equilíbrio hormonal. O objetivo não é consumir gordura em excesso, mas garantir que ela não é negligenciada, especialmente em contextos de treino intenso, stress elevado ou dietas restritivas.
Quais gorduras consumir no dia a dia?
No quotidiano, o mais importante não é eliminar grupos de gordura, mas sim priorizar qualidade, variedade e equilíbrio. Uma alimentação saudável inclui diferentes tipos de gordura, cada uma com funções específicas, desde que consumidas em quantidades adequadas.
As gorduras monoinsaturadas devem formar a base do consumo diário. São estáveis, versáteis e estão associadas a benefícios cardiovasculares e metabólicos. O azeite de oliva extra virgem é um excelente exemplo e pode ser utilizado tanto para cozinhar como para temperar. Abacate, azeitonas e frutos secos também são boas fontes para uso regular.
As gorduras poli-insaturadas, especialmente os ómega-3, devem ser incluídas de forma consistente. O consumo regular de peixe gordo (como sardinha, cavala ou salmão) duas a três vezes por semana contribui para a saúde do coração, do cérebro e para o controlo da inflamação. Para quem segue uma alimentação vegetal, sementes de linhaça, chia e nozes são fontes importantes, embora a conversão para ómega-3 ativo seja limitada.
As gorduras saturadas não precisam de ser completamente evitadas, mas devem ser consumidas com moderação. Alimentos como manteiga, queijo e carnes gordas podem fazer parte da alimentação, desde que não sejam a principal fonte de gordura diária e estejam inseridos num padrão alimentar rico em fibras, vegetais e alimentos pouco processados.
Já as gorduras trans devem ser evitadas sempre que possível. Estão associadas a riscos claros para a saúde cardiovascular e geralmente surgem em produtos ultraprocessados. Ler rótulos e evitar alimentos com “gordura vegetal hidrogenada” é uma estratégia simples e eficaz.
Em resumo, uma boa estratégia diária passa por:
- Priorizar azeite, frutos secos, sementes e peixe
- Variar as fontes de gordura ao longo da semana
- Evitar o consumo frequente de ultraprocessados
- Ajustar quantidades às necessidades energéticas individuais
Gorduras na prática: exemplos simples
Aplicar o conhecimento sobre gorduras no dia a dia não precisa de ser complicado. Pequenas escolhas consistentes fazem grande diferença ao longo do tempo.
Em refeições principais, usar azeite de oliva para cozinhar legumes, saltear alimentos ou temperar saladas é uma forma simples de garantir gordura de qualidade. Substituir molhos industrializados por azeite, limão e ervas aromáticas melhora tanto o perfil nutricional como o sabor.
Ao pequeno-almoço ou lanches, incluir frutos secos, sementes ou manteigas naturais (como amendoim ou amêndoa) ajuda a aumentar a saciedade e fornece energia sustentada. Em vez de produtos ultraprocessados, estas opções oferecem gordura, fibra e micronutrientes.
Nas refeições com proteína animal, optar por peixes gordos algumas vezes por semana é uma estratégia eficaz para aumentar a ingestão de ómega-3. Quando o consumo de carne é frequente, escolher cortes menos gordos e equilibrar com fontes vegetais de gordura ajuda a manter um bom perfil nutricional.
Para quem cozinha em casa, alternar fontes de gordura ao longo da semana evita excessos e melhora a variedade nutricional. Não é necessário usar muitos óleos diferentes — escolher bem e usar com consciência é mais eficaz do que complicar.
Por fim, lembrar que a quantidade também importa. Mesmo gorduras saudáveis devem ser usadas com moderação. Uma alimentação equilibrada é feita de escolhas consistentes, não de perfeição diária.
Perguntas frequentes
Gordura engorda?
O excesso calórico engorda. A gordura, quando bem utilizada, ajuda no controlo do apetite.
Devo evitar gordura à noite?
Não. O que importa é o total diário e a qualidade da alimentação.
Óleo de coco é saudável?
Pode ser usado ocasionalmente, mas não deve ser a principal fonte de gordura.
Dietas low fat são mais saudáveis?
Nem sempre. Muitas falham por falta de saciedade e défices nutricionais.
Conclusão
As gorduras são essenciais para a saúde e não devem ser temidas. O segredo está em saber distinguir os tipos, priorizar fontes de qualidade e evitar excessos e ultraprocessados.
Uma alimentação equilibrada inclui gordura — e inclui prazer. Quando feitas boas escolhas, as gorduras tornam-se aliadas da saúde, do metabolismo e do bem-estar a longo prazo.
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